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Sem alma

Sou peregrino andando em mim Ruas, avenidas, alamedas Sem RG, poeta se disfarça Andarilho só quer ser livre Na cidade sem alma Eu viajo... a seta está cravada Em um mundo em desencanto Não há destino para andarilho Vou no silêncio das luzes Voando feito pluma Consigo ver a inutilidade De quem não quer olhar Eu percebo a falta de ar Na cidade dos objetos Na cidade sem alma Há adultos fora da hora Crianças sem escolas Hospitais sem médicos Esqueceram, o que somos Não quero ser um objeto Sou um ser em extinção Consigo descançar  A sombra dos insetos Nas trilhas das formigas Consigo entender suas idas e vindas O sentido do  trabalho Antes do inverno Sou peregrino, não mendigo Não vivo de esmola Tenho no bolso ar Tenho no bolso a água O sol é meu companheiro Sou rico, busco almas Sonho viver em uma cidade Cidade da Utilidade Onde os homens  são meninos E meninos homens com almas

Presente

Brotada em água  Não uma Vitória- régia Arte do homem... Por poucos dias, Flutua a majestosa Olhares diversos Olhares dispersos... Longe de sua sombra Distante são seus frutos As luzes e brilhos Um espetáculo!... Presente da cidade A cidade está nua A cidade está suja Mendigando suas dores Maquiaram seu rosto Vejam a grande árvore! Realmente a maior de todas Logrando o sentido do nascer O natal do menino Deus Presente por poucas horas Por poucos dias Pelos frutos se conhece A árvore e o agricultor E o dono da terra Diz:-Quero seu coração Da-me  ele de presente Sua mente está doente Nasça de novo Este é o maior presente Que todos precisam ganhar

Flanar

Quero flanar Ser uma pena Levado ao vento Sondar o precário Nosso outono trágico Ausência de primavera Folhas e homens ao chão Tudo que não sei Eu sei... aprendi nas ruas Flanei  nos becos Nos  labirintos dos guetos Embaixo das pontes Tropeçam os homens Em pedras, pobres zumbis Precariedade extrema Flagelos sem opção Entre lama e sangue Flanei a conversa  De uma criança...  Marcou-me a sua alegria Feriu-me sua dor Sem confidência, sem fingir Domingo vou passear Vou ao presidio Lá está minha mãe Ela fez o que não devia Em meu flanar Eu os vi  bebendo refresco Com bolo de fubá Entre os muros cinzentos Os guardas não podiam conter Lágrimas e risos de felicidade A meiguice de uma mãe que sofre Voz embargada, sussurros... Não pegue no que é do outro Fique livre... siga limpo...

Sinal

Tu me pedes um sinal O de Jonas ti basta As pedras clamam Em Társis não se chega Tens fugido da verdade Uma nova Nínive haverá Com o seu olhar de carne Não consegues enxergar Tu me pedes um sinal O clamor de dores, Clamor de horrores Tem chegado a mim Tu me pedes um sinal Eu virei nas nuvens Uns se alegrarão  Outros chorarão Todos os joelhos se dobrarão A grande Babilônia jamais será achada Haverá um novo céu, Uma nova terra O dia, a hora, só ele saberá Vigiai!, Vigiai! Quem vos fala é maior que Jonas.

Não dito

Suas palavras não ouço Mas elas foram ditas Voz sem som O livro que lhe dei A capa, as palavras Cortaram sua fala Como faca De dois gumes Eram sedas, eram espinhos Era água, era sal Suas palavras não vieram O silêncio do não dito Falou demais Tem doído meus ouvidos Não há tempo e nem espaço Não se foge em silêncio Há um olhar que sabe codificar O não dito é um dito Está escrito, bem escrito... Chega de se enganar.

Na pele

Tenho andado no meio do nada Embora no meio de tantos Ando assim há muito... Na superficialidade Insensivo, passivo Tenho tomado ansiolítico No divã de mim mesmo Confesso minha patologia Estou muito superficial Não percebe, não vejo... Não sinto além da pele Não queria ser assim Queria sentir as pessoas No meu mais profundo Além da minha derme Além da minha hipoderme O remédio do mundo Não tem me mudado Sonho ser feliz.... De dentro para fora Sem artificios Das drogas e outros vicios Alegria, só minha não me basta Quero a sua Quero não ser artificial Quero me curar do superficial Quero ir além da pele Quero sentir com o coração Fluir mais aos outros Fluir mais compaixão O que não quero, faço O que sonho, não consigo Me ajude!, me ajude! Não quero pra mim Não quero pra ti Não quero fingir Está em minha pele.

Sem saída

Estamos a girar.... Hamster em sua roda Girando, girando... Exercitando o corpo Homens decaídos Em cada esquina Exercícios, academias Frágeis criaturas Em suas esteiras Girando, suando Corpos sarados Homens doentes Sem saída.... Os neurônios Em um massa Cinzenta nebulosa O mundo não melhora Hamster e homem Algo em comum Forçado em sua roda Gira... Gira o ratinho O homem e suas experiências Nas esteiras patinam Simile hamster sem saída Autor e vítima: da doença do mundo...