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Penso logo...

Meu Caro René quero entender Angustiante realidade das cidades Seres, pessoas sem reconhecimento Seres aniquilados Catástrofe humana, inverno de morte O amor, não amou, esfriou... Não-pessoas em todas as partes Não-pessoas, estranha classe de pessoas Desaparecem nos presídios Não há juiz de Plantão Nos corredores dos hospitais A espera da morte Não há médico para as não-pessoas Caro René quero apenas dizer Não há nada tão angustiante Do que existir, não existindo O que é ignorado não existe Há não-pessoas nas ruas, nas calçadas Nas escolas, nos abrigos, nos cortiços Descartes... penso em exclusão Há um buraco negro em nossa selva Ignorar as não-pessoas será o fim Um mundo quadrado, patologicamente Condomínios doentes...desagregação da mente Não há aproximação, anomalia, esquizofrenia O que desejamos? para onde ir? Sempre que desejamos, nos falta algo Desejamos o que não somos Assim o desejo é sempre o que nos faz falta Precisamos do outro para existir Pessoas, gente como a gente.

Aldeia

Me doeu pensar assim Quando alguém me diz não A vida diz sim Há tribos com iPod, batatas fritas Não me venha com seu pensar Vou baixar a banda da hora Os índios de minha terra Sem opções Pensar em Dourados Não há ouro Não há prata Comer e beber Coca-cola, hamburguer X tudo, X salada Não há peixe, mandioca Vidas em desafetos Vidas Afetadas A morte não agenda a hora Estamos na mesma canoa Imagem efémera Vaidade, das vaidades Tudo se vai...

Gavetas

Nas gavetas não se prendem Sentimentos, pensamentos O que criança fala é bom escrever Algo muito mais feroz que as traças Cupins não entende as metáforas Metáforas entende os Cupins Eles podem comer o papel Eles podem comer os versos A poesia jamais No obscuro, há luz Em gavetas estão os sonhos Apenas a espera de asas Voar por todos os cantos Para nos intrigar Com perguntas sem respostas Eu quero entender Vietnã seus inocentes Eu quero entender O homem na lua Marcas sem futuro Seremos os primeiros Perguntas sem respostas Respostas sem perguntas Morre quem for pacifista Na luta de seu sonho Nas gavetas dos generais, guerras Na de Luther a paz Não há vencedores Perdemos no olhar Podemos no observar O que a criança fala Homem não escreve Continuam em gavetas Pesadelos... Não podemos dormir Em lágrimas... Buscamos respostas Para quem este mundo? Para os meninos homens Ou homens meninos?

Em vermelho

Há muitos em vermelho Gerações em vermelho Há uma justiça em vermelho O sangue dos inocentes A febre de muitos em vermelho Crianças, idosos, vidas em vermelho Uma dívida não paga Séculos, e séculos... Mundo de caçadores Mundo de acumuladores Caçadores de gente Senhores de inventos Monumentos tijolos de sangue Artérias que não se estancam O mundo não se sustenta Bebe de um circo Migalhas de pão Sabemos o que nos afeta Um novo chip... Filas nos shopping Inventos piratas Coisas da China Velocidade da luz Ufa! estamos no vermelho Silicone não esconde O rosto do cruel caçador Até no fundo do mar Insano consumo Insosso pré sal Quando virão os jardineiros ? Com suas sementes Cultivar os frutos do bem Os pássaros e os lírios do campo Sabem como comer Como se vestir Lições do Filho do homem Querem começar ?

Embrisar

Um vento calmo conduz Eu, o mar e meus versos bronzeados Sem a sua presença... Corpos e versos pálidos O sol não se faz poesia Só uma canção de lamento Pôr do sol solitário Não é belo, não há arte Não é luz, não há líquido Sem você tudo é concreto Choro um chumbo pesado Sinto sede das ondas Beber de sua presença Maquiagem, de corpo salgado Conversas de namorado Brisa e brasa não se apagam Dunas que se movem Levam nosso amor Sempre que o mar embrisa Ele me trás você Em um crepúsculo... Com sabor de beijo Grão de areia Em minha pele Não dá pra esquecer...

Ler

Pergunte-se...pergunte-se ! O que significa ler? Um livro frente aos olhos? Para muitos é isto, infelizmente Um livro, um verso, uma frase Em frente aos olhos não é nada Estamos armados até os dentes Internamente em guerras... Precisamos nos desarmar Com esta qualidade de coração... Resultado de medo, raiva Resultado de inveja e da ganância Não se pode ler... somos ignorantes Não é possível ...não se ler Há um grande abismo Pobres e ricos... Pergunte-se... Pergunte-se Que os são? Quem deveria sentir vergonha Não é o pobre mas quem cria pobreza O intelectualismo precisa ler Não apenas as palavras Ler o rosto, as emoções Ler o chão onde se planta Tudo pode ser páginas A África e sua fome... Fomos exilados da atualidade E por inerência ... Fomos expulsos do futuro Pergunte-se o que estamos lendo? Se for esperança de vida Ensine as crianças Elas precisam ler Crianças e lágrimas não combinam.

Imprevisível

Se você embarcar comigo nesta jornada Nunca saberá qual será a próxima etapa Pode ser um viagem segura Pode ser uma viagem caótica Viagem com poeta é imprevisível Quando estou em estado de poesia Tenho memórias em extremos Há momentos que são claros Outros só me lembro da dor Os detalhes se perdem As lágrimas não são vistas Eles escorrem dentro em mim Tenho medo de ficar sozinho Quer vir comigo nesta viagem? Sempre há algo pairando no ar Vamos ficar cinco minutos observando... As ruas me chamam de omisso Em meu silêncio prospera a vergonha Eu não pude curar sua dor Olhar de cidade que agoniza.... Implorando por um conforto Fiquei assombrado... Este lugar é tão familiar Suas chagas, suas lágrimas Em bancos frios de concreto Nossa alegria será blasfêmia Há dias que não somos capazes... Voltemos amanhã... será que haverá?