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Fome

Tenho fome da palavra A palavra exata Tenho buscado Ela está no ar Ela está na terra Ela está no mar Quero come-la Ela e doce na boca Amarga no ventre Os dias são maus Busco ver o bem O mal está a porta Absinto em meu peito Tenho fome de encontra-la Subirei as nuvens No mais profundo da terra No Abissal do oceano A palavra exata Pisada pelos homens Maltratada pelos tolos Desprezada pelos fortes Ele e doce na boca Ela e amarga no ventre É preciso come-la Ela aproxima Ela nos afasta Ela enxuga Ela trás lágrimas Doce na boca Amarga no ventre Não mais dores Eis a palavra Vida aos corações A quem se fizer de menino

Por um fio

A vida  se desforma Como os relógios  Surrealismo de Dalí Nosso realismo daqui O tempo escorre de lá A vida sangra de cá Foi assim com o malabarista Alpinista de vidraças Foi assim na Paulista Um ciclista caído na pista Seu braço caído em um riacho A procura do seu dono Agora um semi-abraço A vida está por um fio Vodkas, energéticos, volantes Não se vê o outro   Não se vê a si Vida por um fio Balas perdidas Babás enfurecidas Dores...feridas... Freud não explica Vida por um fio Tiros de fuzis O vil metal maltrata O vil metal que mata O animal que sou Jacques Derrida... estamos a deriva Quem é animal , quem é humano? O animal está nu, sempre nu O homem se esconde Suas máscaras, suas roupas... Seu drama, teatro insano Em um ato foi-se um braço Em outro ato deu-se a vida Quem estava por um fio Deu a outra face Face de perdão Da desolação A sublime lição Eu preciso aprender Não feche a cortina...

Perguntas

Tenho feito pouco, sou bem pouco Em tela meu pensar As palavras dizem não há mover Para isto se presta um poeta Chorar um jardim sem flores Vidas sem amores Ruas sem sabores Para que se presta um poeta? Gritar seus versos em um abismo Mesmo não tendo ouvintes Perfurar corações de pedra Até que venha sangrar Para que presta um poeta? As palavras são games Brinquedos são versos Os olhares não brincam Lágrimas do poeta Ver sujeitos sem conteúdo Sem  consciência de si A que se presta sua poesia? Dizer o que o alegra Dizer o que o entristece O afastamento silencioso Sem chance de um retorno Árvores sem frutos Praças sem crianças Homens zumbis, zanzando Olhares para o nada... Para que se presta o poeta? Tirar seu olhar do espelho Deixando de se Narcisar Antes que tudo pereça Há vidas lá fora... Vidas precisando de Vida Se apressa poeta!

Água

O sol sempre... não faz sombra Os dentes de brasas marcam No chão rachado rastros de peixes O mandacaru esconde sua flor O gado bêbado por não beber No céu s inal de fogo Água ausente ... lágrimas No estradão barrento A miragem de umas gotas Água... será água? Promessas, rezas, ladainhas Linguas secas clamam Banho é luxo, me de migalhas Gotas, dois dedinhos de água O sol não se vai Meu boi se foi, mo rreu torrado Sertão sua cima Morte ao homem Quem se importa? Sertão sem pão Sertão sem feijão Minha esmola de sempre Bolsa família dos secos Nada... nada de molhado Sertão sua cina Chuvas de promessas Rio de salivas... A água há de brotar Depois do carnaval Restos de uma fantasia Água... água...

Um pouco

Há em nós um pouco do pó O pó das galáxias, do infinito Temos um pouco, vejo grãos Temos pitadas de um muito Da areia que já foi rocha Temos o crepúsculo Um pouco do dia,  Um pouco da noite O mesmo de nossa aurora Temos um pouco da visão Temos um pouco da cegueira Um pouco do lobo, Um pouco carneiro Somos real, ilusão Temos um pouco do saber Um pouco de não saber nada Temos um pouco da vida Temos um pouco da morte Apenas um pó do principio Átomos, moléculas No infinito um navegar... Em  torno do sol Dias de luzes, dias de sombras Somos um pouco herói Somos um pouco bandido Somos um pouco do amor Somos um pouco dos prazeres Somos pouco em um viver E vivemos muito pouco Um grão de mostarda Abstrato grão de fé Aos poucos... O Eterno nos espera

Sem alma

Sou peregrino andando em mim Ruas, avenidas, alamedas Sem RG, poeta se disfarça Andarilho só quer ser livre Na cidade sem alma Eu viajo... a seta está cravada Em um mundo em desencanto Não há destino para andarilho Vou no silêncio das luzes Voando feito pluma Consigo ver a inutilidade De quem não quer olhar Eu percebo a falta de ar Na cidade dos objetos Na cidade sem alma Há adultos fora da hora Crianças sem escolas Hospitais sem médicos Esqueceram, o que somos Não quero ser um objeto Sou um ser em extinção Consigo descançar  A sombra dos insetos Nas trilhas das formigas Consigo entender suas idas e vindas O sentido do  trabalho Antes do inverno Sou peregrino, não mendigo Não vivo de esmola Tenho no bolso ar Tenho no bolso a água O sol é meu companheiro Sou rico, busco almas Sonho viver em uma cidade Cidade da Utilidade Onde os homens  são meninos E meninos homens com almas

Presente

Brotada em água  Não uma Vitória- régia Arte do homem... Por poucos dias, Flutua a majestosa Olhares diversos Olhares dispersos... Longe de sua sombra Distante são seus frutos As luzes e brilhos Um espetáculo!... Presente da cidade A cidade está nua A cidade está suja Mendigando suas dores Maquiaram seu rosto Vejam a grande árvore! Realmente a maior de todas Logrando o sentido do nascer O natal do menino Deus Presente por poucas horas Por poucos dias Pelos frutos se conhece A árvore e o agricultor E o dono da terra Diz:-Quero seu coração Da-me  ele de presente Sua mente está doente Nasça de novo Este é o maior presente Que todos precisam ganhar